Mensagem na Garrafa

Eu acordava todas as manhãs um pouco antes da alvorada. Saia de canoa para a Enseada das Tartarugas e, vez ou outra, encontrava uma garrafa de rum presa nos corais. Dentro, pergaminhos contavam histórias de um velho naufrago, que permaneceu na ilha e fez amizade com as anciãs cascudas que lá habitavam. Sabia ele, que suas pegadas deixadas na praia seriam lavadas, que o único rastro de sua existência resumiria-se às palavras ditas em cartas, destinadas ao mar, que às minhas mãos sujas de peixe chegara. Estaria ele bêbado para então confiar sua memória a mim? Talvez. A garrafa era a mesma, embora novas mensagens chegassem de tempos em tempos. Qual delas teria sido escrita à luz de uma sanidade dúbia? Como um homem naufragado gastaria sua ultima garrafa de rum? Embora eu não soubesse apontar quais eram as palavras, sabia que seriam  lambuzadas de delírio. 

Mordomo

Ela carregava consigo uma lista de perfeições, enquanto passava na prateleira de pessoas. Após desistir das mais brilhantes opções, enfim descobriu que havia se perdido.
Pouco exigente, só queria comprar um corpo que mantivesse a cabeça erguida com um olhar distante, mas quando olhasse para baixo, reproduzisse um "eu te amo" suave. Claro que não era natural, mas nada é mais cativante do que um amor duvidoso!
"Venha cá, fique de joelhos do meu lado e junte suas mãos às minhas em silêncio", dizia uma das geniais instruções. Ali estava o diplomata perfeito, como uma moldura para a arte, um banner para o ego.
Caso quisesse sair da postura, encontraria apatia descabida, então se prenderia ainda mais. Caso quisesse mostrar afeto, encontraria um abraço morno, devidamente orientado para não significar nada, mas iludir bastante. Não precisava mais do que uma convincente falsidade para obter calma. Na prateleira nada encantava, pois a liberdade não cabia às suas demandas feitoras. Só havia beleza nas perfeições caladas do homem sem alma, que em sua mente ferida, vivia.

Onde Desce a Luz de Estrelas Mortas

Martin clareou. Suspeitava que, de alguma forma, fosse condicionado a procurar corpos brilhantes. Olhava o céu quando em apuros; se estivesse de noite, encontrava sossego nas morosas e solitárias estrelas. Mas se estivesse de dia, seus olhos ardiam em agonia calorosa, e não conseguia mante-los focados na luz. Acabara de encontrar aquele corpo, celeste, áureo, confortante. E quando ela se aproximou vagarosa, sua incidência amarela incendiou-o sem deixar queimaduras. Com um brilho forte de um pequeno sol.
Seus vários seguidores revelavam sua trajetória quanto estrela, nas sombras, onde sua luz não os alcançava. Diziam as pobres línguas iludidas,que a bela estrela cantava.

Diálogos de um moribundo recém-nascido

"Estou morrendo, é verdade.
Não da gripe que me assola,
diga-se de passagem."
"Mas quem clama por mim além de vós?
Ó colchão,
Ó sofá!"
"Deite e espere..." Ela sussurra.
Novamente a Enfermidade leu minha mão.
"Estou morrendo..."

Alguém me cobra novidades,

eis que respondo:
"Nenhum avanço por aqui, capitão!"
"Parece que não haverá nenhum,
de qualquer forma."
"Mas... Eu estou esperando!"


Pupilas Instáveis

“Ó, belezura!”
Canta meus lábios patéticos.
A beleza de volta urra:
“Não tarde me encarando, retardado!”

Tento desviar o olhar,
mas seus belos mandalas,
azuis pálidos como o ártico,
empalam lanças opalas
no meu corpo estático

Ali petrificado, jazia eu.
Inerte, fascinado,
Aviso-a que sou seu.


Vela aos Sais

No corte salgado de água e bruma
O rum mágico derrama e ruma,
Um navio pirata além da sorte
Onde venta a bandeira da morte.

Sussurros de liberdade ecoam a proa
Ó bela sereia que a frente coroa!
Posta ao canto sombrio dos canhoneios
Respinga lágrimas da cauda aos seios

Ante a quilha perder o beijo do mar,
O guardião fantasma martela o lar,
Nas tristes noites de mortal tormenta.

Às profundezas da saga violenta
Vossa aura de ouro raia as águas planas
E aos arqueios vela a Vingança da Rainha Ana


Soneto escrito a partir de sonhos que me seguem desde a infância.

Ansiedade

O que vinha dela,
era ouro natural,
Sentimental,
de valor não estimado.
Sentia-se pobre pelo que tinha,
Como poderia retribuir
Com alma, tempo e vento?
Não sabia bem de onde tiraria
Queria dar sol, estrela, vida.
Tudo no mesmo momento
"Diga-me por favor, princesa!
Quer de mim mundo?
Perseguirei fundo
E de concha em concha
Encontrarei pra ti
A mais bela pérola de Netuno!"
Ela deitada no peito,
escutava o coração
"Não quero mais nada, amor
Vamos só ficar aqui no colchão
desviando do ventilador"

Mar Ciano (Poesia)

A noite saudou a estrela da manhã
A inconsciência finalizou num instante
Sua mácula de ignorância restante
E despertou-lhe uma sabedoria anciã.

Despejando os sentidos nas ondas
Seu pulmão de ar se privou
Valente para um perduro finito
No tempo que Poseidon lhe emprestou

Na vagues das correntes cristalinas
Vi o temor de meu pai ser afogado
Para as distantes profundezas salinas
Onde nosso sustento era pescado


Passagem pelo cosmos #2

"[...]

Martin ergueu-se então da rede abandonando seu divã, e ao olhar em volta, viu que as aparições de celofane não mais o acompanhavam. Então, com um suspiro de exaustão por segurar suas dúvidas na mente, ele chorou as palavras como se o relento pudesse responde-lo:

- Pergunto então ao vento, se só ele pode me ouvir - anunciou, dessa vez refletido no espelho oceânico - por que a vida humana é efêmera, mas um beijo breve é perene? Por que cubro-me de tanta humildade sentimental, se quando obtenho amor não consigo retribui-lo? Serei eu uma entidade gananciosa, que toma a paixão e morre engasgado com ela? Meus pés estão em alto-mar e não marcam as areias; meus beijos mesmo em êxtase, não são lembrados como verdade. Tal sina não mereço... Pois desejo mergulhar acima de qualquer oráculo, senão me esquecerão, então não existirei no passado se o futuro não se lembrar de mim!
O sopro constante do vento sul pescou sua atenção, e à primeira percepção, parecia realmente uma resposta, mas a longo prazo revelou-se um banho de lucidez. E então Martin zombou de si mesmo, pois ardia em seu intimo a reflexão dos marinheiros e uma nova cicatriz de sabedoria[...]"

Passagem pelo cosmos #1


''[...]

Quando Numen Neit foi jogado no Cenote Sagrado como sacrifício, suas esperanças de sobrevivência foram arremessadas junto com seu espirito. Mas, apesar dele ter acertado a água, suas esperanças acertaram as pedras. Ele foi quebrado, como homem e como sábio. Uma costela fraturada espetava seu vigor a cada movimento que fazia. Ele sabia porém, que se chegasse vivo na superfície novamente, os cidadãos o considerariam uma encarnação divina, um ser profano vindo de Ah Puch, o deus do submundo, ou a aparição de Kinich Ahau, o deus do sol, pois este voltava da terra dos mortos todas as manhãs. Porém Numen não podia se levantar, os fios da harmonia embranqueciam sua visão estourando as ligações pouco a pouco.

“Sem muito esforço…É só olhar para cima e se lembrar, pensou.
Fechou os olhos esperando encontrar luz, mas falhou.
Abriu-os esperando ser iluminado, mas só havia um céu escuro e ofuscado. O desespero tomou conta de sua mente, mas ele nem ao menos piscou.
Se estou na crosta, estou no fundo; agora o poço se eleva acima das luzes da cidade, a escalada vai até as estrelas. [...]"