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#1 Big City Nights

 Era uma daquelas noites. O frio logo cedo me levou a uma dose de uísque.
 - Jack com três pedras de gelo - pedi no Batidão da esquina. Enquanto eu assistia o metrô sugar cidadãos para dentro da terra, o garçom preparava a bebida e, mais uma vez a maldita consciência do Criolo me alertava, “não existe amor em SP...”.
 Profeta nosso de cada rolê, este se provava cada vez mais certo. Como um oráculo inoportuno, o refrão embarcava no vento frio, passava pela rua, e assobiava no meu cangote.
 "Eu te disse", lembrava.
 Em São Paulo, só restava a nostalgia do amor. Em alguns momentos era a temperatura, outros era o caos da cidade. Eu não sabia lidar com a euforia silenciosa, pois fui criado em uma vila de pescadores e sempre me senti acolhido pelo mar. A água me recebia com uma garrafa cheia e após esvazia-la, levava o casco e me trazia uma mensagem. Algumas vezes eu ia à praia receber as cartas, e de repente estava manso.

Psico-engate (prosa poética)


 Estou morrendo, é verdade.  Não da gripe que me assola, diga-se de passagem.
– Mas quem clama por mim além de vós? – pergunto – ó colchão, ó sofá!
– Deite e espere... – ela sussurra.  Novamente a Enfermidade leu minha mão.
– Estou morrendo... – lamento.

 Meu lamento causa atraso, e, ao notarem, logo me cobram progresso. Eis que respondo para o enviado:
– Nenhum avanço por aqui, capitão! – atualizo de prontidão. O suor escorre da testa junto com minhas inspirações tão necessárias.
– Parece que não haverá nenhum, de qualquer forma. – o Capitão da Humanidade responde.
– Mas... Eu estou esperando!
– Sei disso. Todos nós estamos. – encerrou e foi embora antes de eu começar minha continência.
– Estou morrendo... – lamento.

– Erga a folha, olhe-a sem piedade, rabisque sua ideia como uma faca rabisca a carne – instruiu o Poeta Violento.
 Ergo-a então, como dizia a instrução e começo a rabiscar qualquer coisa sem paixão.
– Assim não dá! A felicidade não vem! Como devo escrever então? Essa exaustão apodrece em minhas veias! – protejo-me em desculpas.
– Tanta decepção... Se não queres mais a arte, rasgue-a então! – braveja o poeta, coberto de emoção.
– Estou morrendo... – lamento de antemão.

Pomar de Sorrisos

  Chovia levemente no gramado da raposa. O terreno era belamente esculpido: as gramíneas eram espessas e fofas, pareciam um tapete; o pomar, bem aparado, coloria os fundos do terreno com faixas de frutas nos pés dos troncos; a casa perto do pomar era linda, com várias redes na varanda e paredes de pedra-mel. A raposa cuidava bem da sua toca. Naquele dia especialmente, o pomar estava abarrotado de mesas de madeira e faixas de pessoas coloridas cobriam as frutas. Era um dia ímpar de celebração.
  Eu havia sido convidado dessa vez, estava a passeio. Entreguei um saco de arroz na entrada e fui até o pomar procurar algo para beber. Enchi uma de taça de vinho e me afastei vagarosamente das távolas e risadas convidativas para saborear a bebida. Da mesa mais próxima de mim, um homem se destacava vestido de terno. Pela forma que ele se vestia e sorria, aquele dia era muito especial, embora um conforto de alguém muito experiente sombreasse seus arredores, afastando qualquer interrogação alheia de sua aparência. As pessoas que falavam com ele pareciam acostumadas a vê-lo daquela forma.

Mensagem na Garrafa

Eu acordava todas as manhãs um pouco antes da alvorada. Saia de canoa para a Enseada das Tartarugas e, vez ou outra, encontrava uma garrafa de rum presa nos corais. Dentro, pergaminhos contavam histórias de um velho naufrago, que permaneceu na ilha e fez amizade com as anciãs cascudas que lá habitavam. Sabia ele, que suas pegadas deixadas na praia seriam lavadas, que o único rastro de sua existência resumiria-se às palavras ditas em cartas, destinadas ao mar, que às minhas mãos sujas de peixe chegara. Estaria ele bêbado para então confiar sua memória a mim? Talvez. A garrafa era a mesma, embora novas mensagens chegassem de tempos em tempos. Qual delas teria sido escrita à luz de uma sanidade dúbia? Como um homem naufragado gastaria sua ultima garrafa de rum? Embora eu não soubesse apontar quais eram as palavras, sabia que seriam  lambuzadas de delírio. 

Mordomo

Ela carregava consigo uma lista de perfeições, enquanto passava na prateleira de pessoas. Após desistir das mais brilhantes opções, enfim descobriu que havia se perdido.
Pouco exigente, só queria comprar um corpo que mantivesse a cabeça erguida com um olhar distante, mas quando olhasse para baixo, reproduzisse um "eu te amo" suave. Claro que não era natural, mas nada é mais cativante do que um amor duvidoso!
"Venha cá, fique de joelhos do meu lado e junte suas mãos às minhas em silêncio", dizia uma das geniais instruções. Ali estava o diplomata perfeito, como uma moldura para a arte, um banner para o ego.
Caso quisesse sair da postura, encontraria apatia descabida, então se prenderia ainda mais. Caso quisesse mostrar afeto, encontraria um abraço morno, devidamente orientado para não significar nada, mas iludir bastante. Não precisava mais do que uma convincente falsidade para obter calma. Na prateleira nada encantava, pois a liberdade não cabia às suas demandas feitoras. Só havia beleza nas perfeições caladas do homem sem alma, que em sua mente ferida, vivia.

Onde Desce a Luz de Estrelas Mortas

Martin clareou. Suspeitava que, de alguma forma, fosse condicionado a procurar corpos brilhantes. Olhava o céu quando em apuros; se estivesse de noite, encontrava sossego nas morosas e solitárias estrelas. Mas se estivesse de dia, seus olhos ardiam em agonia calorosa, e não conseguia mante-los focados na luz. Acabara de encontrar aquele corpo, celeste, áureo, confortante. E quando ela se aproximou vagarosa, sua incidência amarela incendiou-o sem deixar queimaduras. Com um brilho forte de um pequeno sol.
Seus vários seguidores revelavam sua trajetória quanto estrela, nas sombras, onde sua luz não os alcançava. Diziam as pobres línguas iludidas,que a bela estrela cantava.

Passagem pelo cosmos #2

"[...]

Martin ergueu-se então da rede abandonando seu divã, e ao olhar em volta, viu que as aparições de celofane não mais o acompanhavam. Então, com um suspiro de exaustão por segurar suas dúvidas na mente, ele chorou as palavras como se o relento pudesse responde-lo:

- Pergunto então ao vento, se só ele pode me ouvir - anunciou, dessa vez refletido no espelho oceânico - por que a vida humana é efêmera, mas um beijo breve é perene? Por que cubro-me de tanta humildade sentimental, se quando obtenho amor não consigo retribui-lo? Serei eu uma entidade gananciosa, que toma a paixão e morre engasgado com ela? Meus pés estão em alto-mar e não marcam as areias; meus beijos mesmo em êxtase, não são lembrados como verdade. Tal sina não mereço... Pois desejo mergulhar acima de qualquer oráculo, senão me esquecerão, então não existirei no passado se o futuro não se lembrar de mim!
O sopro constante do vento sul pescou sua atenção, e à primeira percepção, parecia realmente uma resposta, mas a longo prazo revelou-se um banho de lucidez. E então Martin zombou de si mesmo, pois ardia em seu intimo a reflexão dos marinheiros e uma nova cicatriz de sabedoria[...]"

Passagem pelo cosmos #1


''[...]

Quando Numen Neit foi jogado no Cenote Sagrado como sacrifício, suas esperanças de sobrevivência foram arremessadas junto com seu espirito. Mas, apesar dele ter acertado a água, suas esperanças acertaram as pedras. Ele foi quebrado, como homem e como sábio. Uma costela fraturada espetava seu vigor a cada movimento que fazia. Ele sabia porém, que se chegasse vivo na superfície novamente, os cidadãos o considerariam uma encarnação divina, um ser profano vindo de Ah Puch, o deus do submundo, ou a aparição de Kinich Ahau, o deus do sol, pois este voltava da terra dos mortos todas as manhãs. Porém Numen não podia se levantar, os fios da harmonia embranqueciam sua visão estourando as ligações pouco a pouco.

“Sem muito esforço…É só olhar para cima e se lembrar, pensou.
Fechou os olhos esperando encontrar luz, mas falhou.
Abriu-os esperando ser iluminado, mas só havia um céu escuro e ofuscado. O desespero tomou conta de sua mente, mas ele nem ao menos piscou.
Se estou na crosta, estou no fundo; agora o poço se eleva acima das luzes da cidade, a escalada vai até as estrelas. [...]"

Mar Ciano (Crônica)

Como em todas as noites no mar Martin tinha ido dormir cedo. De forma que pouco depois da meia-noite ele já estava disposto a mergulhar até achar o Titanic. Os dias eram mais longos, as noites mais fascinantes e a paz ainda maior. Seu colchão ficava no chão da cabine de comando perto do beliche de seu pai. A porta para o convés ficava aberta durante toda a noite e como o espaço era pequeno seus pés ficavam para fora se banhando da brisa marítima. A vista era maravilhosa, ele via as ondas se formando no horizonte até por fim explodirem no casco do barco. Tanto no seu quarto em terra quanto ali abaixo do leme, ele não conseguia dormir sem música. Por isso o item principal de sua bagagem era o ipod​, que estava batizando aquela noite com The Smiths para compensar as musicas que ouvia durante o dia.

Café Verde


A cafeteria tinha acabado de abrir. Martin pegou um livro na prateleira e escolheu uma pequena mesa nos fundos de frente para a porta. Pediu um café à garçonete e inspecionou sua escolha. “A floresta de diabretes” estava escrito de verde na capa do livro empoeirado. Abriu e iniciou a leitura.

Já tinha terminado o primeiro capitulo quando o café chegou, quente e negro. Tomou um gole e fez uma careta. Tomou mais um gole para verificar a sanidade. Dessa vez estava mais gostoso, mas não o suficiente. Abusou no açúcar para dar o veredito e acabou arrependido da ideia. Bateu o martelo pelo café e percorreu o olho pelo lugar. Uma mulher entrou ouvindo música, vestindo um moletom preto e calça jeans. Sentou-se na cadeira perto do balcão e pediu um café. Ela tinha pele clara e cabelos negros.

Memórias de uma colina vermelha

Já tinha passado a hora do almoço quando chegara à casa dos avós. Ficava num pequeno vilarejo, e na base de uma colina, que apesar de ser pequena era o ponto mais alto da vila. O sol já não ardia e viu uma boa oportunidade para escapulir daquela reunião de família. Correu até a cozinha e cortou um pedaço de melancia, pegou sua almofada favorita e a que sua avó tinha feito. Quando ia saindo, a mãe o apanhou.

- Onde está indo Martin? – Ela falou. Não parecia estar nervosa.

- Estou indo para o alto da colina, aqui tá muito chato! Não aguento ficar ouvindo a senhora fofocando com vovó, imagina quando Alice chegar! – E virou-se para partir antes de sua mãe responder, mas falhou.

- Estamos apenas comentando a vida dos outros, ninguém aqui faz fofoca. E a filha da Alice vai chegar daqui a pouco, por que não fica e espera?

- Não tenho interesse – e saiu rapidamente pelo portão – Beijos mãe!

Subiu o pequeno morro gramado em direção à sombra do Pé de manga que ficava no topo da colina. A subida não demorou muito. Quando chegou lá em cima já tinha terminado de chupar a melancia e sua boca estava carregada de caroços. Deitou-se na sombra da árvore e colocou uma almofada embaixo da cabeça enquanto a outra estava embaixo do braço. Observava a paisagem e disparava caroços para cima em direção ao sol, os projéteis seguiam seu alvo como misseis teleguiados. Ali de cima as cabanas da vila pareciam casinhas de bonecas, e eu sou o vilão que quebra as pernas da Barbie, imaginou, e começou a rir. Pensar que era um vilão gigante o divertia. A risada foi interrompida quando sentiu alguma coisa incomodando-o. Será que deitei em um formigueiro? Mas na realidade era o contorno áspero da almofada que a avó lhe dera. Ela ouve meus pensamentos maus, pensou.

Olhou para o céu e disparou um caroço, dessa vez por pouco não caiu na sua face. Fechou os olhos e abraçou sua almofada favorita, que mantinha embaixo do braço, substituindo alguém que ele não conhecia, mas precisava. Alguém que o intrigava, e por receio precisava abraça-lo, isso o confortava e apertava o travesseiro a sua procura. Adormeceu sonhando com o seu travesseiro fantasma. Quando abriu os olhos para cuspir outro caroço viu o rosto de uma menina olhando-o por cima da cabeça.

Martin né? Eu sou Lina. – A menina disse. Tinha cabelos ruivos, cacheados e despenteados, com mechas bagunçadas descendo-lhe a testa. Uma leve linha de sardas cobria bochechas abaixo dos olhos castanhos amarelados.

S-Sim. – Respondeu com o rosto corando.

Todo aquele cabelo vermelho cobrindo-a e seu sorriso pairante lhe deixavam nervoso. Ela me pertuba. Desviou o olhar e ela se afastou um pouco. Fingiu desinteresse e disparou um caroço ao ar. Num movimento rápido a menina pegou o caroço, fez uma careta e saiu correndo em direção à árvore. Com nenhuma dificuldade escalou os galhos e encontrou um grosso suficiente para se deitar, recostou-se e ignorou-o. Barulhenta num instante e silenciosa no outro.

​ O sol desceu até o pé dos montes no horizonte, as nuvens ficaram rosadas, e ela continuou em silencio, ela me perturba, pensou, e fez uma careta. A paisagem o acalmou e a almofada não incomodava mais. O céu ficou vermelho, depois azul, e então ele se levantou para retornar. Passou perto da árvore, silenciosa como se ninguém estivesse ali.

- Vai ficar aqui para sempre? – Perguntou à menina ruiva empoleirada na árvore. – Não há mais nada para ver. – E encontrou o galho onde ela estava, mas ainda estava um pouco escuro.

- Ainda há as estrelas. – Ela respondeu, sem ao menos virar o rosto. E viu seus olhos brilhantes contemplando o céu através da janela de galhos da árvore.

Aquilo o surpreendeu.

F-Faça com quiser – Disse nervoso. Mordeu os lábios e virou-se para ir embora. Com o rosto corado e duas almofadas debaixo do braço ele desceu a colina. Quando chegou à casa já estava escuro. Encontrou sua mãe na varanda cortando laranjas para o avô, Alice estava sentada na cadeira ao lado chupando uma banda já descascada.

Onde está Lina? – Sua mãe perguntou – achei que estivesse com você.

- Ela ficou lá em cima. – Respondeu. E saiu rapidamente para a cozinha evitando mais perguntas. Sua avó estava na beira do fogão quando o notou entrando. Aproximou-se e pegou-o pela bochecha carinhosamente.

- Oi Bochechinha! A melancia estava boa? Você demorou um tempão! – Ela disse. E a única coisa que veio a mente foi Lina pegando o caroço no ar.

E-Estava muito boa – lembrar-se dela o deixava nervoso – Tem mais? – perguntou.

- Tem sim, mas para depois. A sopa está quase pronta! – Ela se afastou e voltou para o fogão.

Quando a sopa ficou pronta Lina ainda não tinha voltado. Terminou de jantar e foi para o quarto. Tentava dormir, mas cachos vermelhos e um rosto sardento o perturbavam e abria os olhos resistindo. Fitou a almofada da avó que lhe pinicava na grama e esmurrou-a gentilmente, em seguida deu-lhe um abraço forte. Meu fantasma, ruivo e perturbador. O abraço o acalmou, e o pequeno Martin adormeceu com um sorriso esticado nas bochechas rosadas.

Brilha! Brilha Garrafinha!

Foi aqui que tudo começou. Minha primeira crônica e minha primeira tentativa, embora despretensiosa, na literatura.

Martin estava deitado na areia da praia vislumbrando o céu negro, as estrelas quase desapareciam às luzes da cidade. Pensamentos que seriam considerados fúteis ao mercado soavam bem confortantes à sua paz arenizada. Seus olhos estavam depositados nas estrelas, tentando recuperar seu brilho ofuscado. A iluminação daquele manto sombrio mergulhava-se numa reflexão profunda, imergia nas histórias bobas de sua vida e absorvia uma sabedoria que invejaria qualquer lunático acadêmico. Bem sabia que a partir daquele momento viveria só pela novidade, nada mais lhe interessava tanto do que o susto da descoberta. Não quero viver no Mundo do Spoiler!, decidiu. Desistiu do esforço em deixar um legado. A busca da surpresa tinha respondido muito coisa, era o âmago de sua vida. Deixou de ser o poeta inspirado à procura da inocente folha branca e se tornou o copiador de páginas inéditas, cheias de milagres e pecados, páginas que continham história para contar. Enquanto jazia na areia, ele se tornou egoísta aos metódicos. Enquanto jazia na areia, ele admirava as idéias novas. Enquanto jazia na areia, queria se levantar e se surpreender. Enquanto jazia na areia, seu amigo Bob jazia embriagado ao seu lado… Enquanto jazia na areia, estava igualmente embriagado.
O companheiro etílico se levantou cambaleando e lhe deu um pontapé.
–Vamos para casa! – Bob declarou, enquanto se estapeava para tirar areia do corpo.
–Está em condições de ir? – Perguntou Martin temeroso de ter que carregar aquele vadio moribundo no ombro.
–Sim, me recuperei depois de uma boa reflexão, a mesma putaria de sempre! – Gargalhou com uma voz rouca, quase como uma tosse. Aquilo não lhe surpreendeu.
Se levantou da areia e caminhou até a margem da praia. Olhou para as estrelas, não lhe pareciam mais ofuscadas. Olhou para o mar, brilhante à luz da lua… Transborda de pensamentos impuros,refletiu. Voltou para onde deixara as coisas e encontrou a esguia criatura bebendo novamente.
–Quer um gole? – Bob estendeu o copo por cima da cara bêbada.
–Não quero dormir com mais vodka lubrificando a garganta! Acho que devia fazer o mesmo – Acusou, e já se virando para pegar as coisas na areia.
–Relaxa puto! Estou bebendo água! – Bob tornou a gargalhar tossindo.
Aquilo lhe surpreendeu.
Já é um bom começo. E um sorriso nascia para abençoar aquela madrugada.